Você começa a corrida em um ritmo confortável, mantém o pace praticamente constante, mas percebe que, depois de alguns quilômetros, sua frequência cardíaca começa a subir. O esforço parece maior, mesmo sem você ter acelerado.
Isso é bastante comum em exercícios prolongados e pode acontecer por diferentes motivos. Um dos principais é a deriva cardiovascular, fenômeno em que a frequência cardíaca aumenta gradualmente durante o exercício, mesmo quando a intensidade externa permanece semelhante.
O que é a deriva cardiovascular?
A deriva cardiovascular acontece quando, ao longo do exercício, a frequência cardíaca aumenta progressivamente enquanto o ritmo, potência ou carga permanecem relativamente estáveis.
Em outras palavras, você continua correndo no mesmo pace, mas o coração precisa trabalhar mais para manter o esforço.
Esse fenômeno é especialmente comum em exercícios prolongados, em ambientes quentes e quando a hidratação não está adequada.
Por que isso acontece?
Durante o exercício, principalmente em temperaturas elevadas, o corpo precisa enviar sangue para os músculos e também aumentar o fluxo sanguíneo para a pele para ajudar na dissipação do calor.
Além disso, com a continuidade do exercício, ocorre perda de líquidos pelo suor, reduzindo o volume plasmático. Com menos sangue disponível para cada batimento, o coração pode aumentar a frequência cardíaca para manter o débito cardíaco necessário.
O resultado é simples: o pace continua igual, mas a frequência cardíaca sobe.
O calor pode acelerar esse processo
A temperatura ambiente tem grande influência.
Em ambientes quentes, uma parte maior do fluxo sanguíneo é direcionada para a pele para favorecer a perda de calor. Quanto mais difícil for controlar a temperatura corporal, maior pode ser a resposta cardiovascular.
Por isso, não é incomum observar uma frequência cardíaca mais alta em um treino realizado no calor, mesmo mantendo exatamente o mesmo ritmo de outro treino realizado em condições mais amenas.
E a desidratação?
A perda de líquidos pelo suor também pode contribuir para o aumento da frequência cardíaca.
À medida que a desidratação avança, o volume plasmático diminui e o sistema cardiovascular precisa compensar para continuar fornecendo sangue e oxigênio aos tecidos.
Isso não significa que qualquer aumento da frequência cardíaca seja causado por desidratação. A resposta depende da duração e intensidade do exercício, da temperatura, da taxa de suor e de características individuais do atleta.
O que isso significa na prática?
Imagine que você começa uma corrida mantendo 5:30 min/km.
Nos primeiros quilômetros, sua frequência cardíaca está em 150 bpm. Depois de algum tempo, o mesmo ritmo passa a exigir 155, 160 ou até mais batimentos por minuto.
Você não necessariamente está ficando menos condicionado naquele momento. Seu organismo está lidando com o acúmulo de calor, a duração do exercício, a perda de líquidos e o próprio estresse fisiológico da atividade.
Por isso, interpretar apenas um dado isolado pode levar a conclusões erradas.
Como reduzir a deriva cardiovascular?
Algumas estratégias podem ajudar a controlar esse aumento:
Hidratação: manter uma ingestão de líquidos adequada às suas necessidades e à sua taxa de suor.
Controle do calor: escolher horários e ambientes mais favoráveis quando possível e utilizar estratégias de resfriamento.
Intensidade adequada: começar o exercício em uma intensidade compatível com a duração planejada pode evitar que o esforço se torne excessivo ao longo da sessão.
Treinamento: a melhora do condicionamento aeróbico aumenta a capacidade do organismo de sustentar esforços prolongados com maior eficiência.
Reposição de eletrólitos: em exercícios prolongados e com alta perda de suor, especialmente em ambientes quentes, a reposição de sódio pode fazer parte da estratégia de hidratação, dependendo das características individuais do atleta.
Frequência cardíaca alta significa que você precisa desacelerar?
Nem sempre.
A frequência cardíaca é influenciada por diversos fatores, como temperatura, hidratação, sono, estresse, cafeína, fadiga acumulada e até o momento do dia.
Por isso, ela deve ser interpretada em conjunto com outros indicadores, como percepção de esforço, ritmo, potência, condições ambientais e histórico de treinamento.
Uma pequena elevação ao longo de uma atividade prolongada pode ser uma resposta fisiológica esperada. Já uma alteração muito maior do que o habitual, principalmente acompanhada de sintomas ou queda importante de desempenho, merece atenção.
Conclusão
Se sua frequência cardíaca sobe mesmo quando o ritmo permanece igual, isso não significa automaticamente que você está correndo mais forte ou que seu condicionamento piorou.
Em exercícios prolongados, a deriva cardiovascular é uma resposta comum e pode ser influenciada principalmente pelo calor, perda de líquidos, duração do exercício e capacidade do organismo de regular a temperatura.
Por isso, entender a relação entre ritmo, frequência cardíaca, ambiente e percepção de esforço é muito mais útil do que analisar apenas um número no relógio.