A escolha do gel de carboidrato no endurance vai muito além da quantidade de energia. Fatores ambientais como temperatura, umidade e altitude influenciam diretamente a absorção, a hidratação e a tolerância gastrointestinal. Ajustar a estratégia nutricional de acordo com o ambiente pode ser decisivo para manter a performance.
Temperatura e estresse térmico
Em ambientes quentes, o corpo prioriza o resfriamento por meio do aumento do fluxo sanguíneo para a pele e da sudorese. Isso reduz o fluxo sanguíneo para o trato gastrointestinal, o que pode comprometer a absorção de nutrientes e aumentar o risco de desconforto.
Nesse cenário, a escolha do gel deve considerar:
- Concentrações menores de carboidrato por dose
- Presença de sódio, para auxiliar na reposição de eletrólitos
- Consumo associado a água, para evitar aumento da osmolalidade
Géis muito concentrados, especialmente sem ingestão adequada de líquidos, podem retardar o esvaziamento gástrico e piorar a tolerância.
Umidade e taxa de sudorese
Ambientes úmidos dificultam a evaporação do suor, aumentando ainda mais o estresse térmico. Isso eleva a perda de eletrólitos e o risco de desidratação.
Na prática:
- Géis com sódio tornam-se ainda mais relevantes
- A estratégia deve priorizar hidratação consistente
- Pode ser necessário reduzir a concentração de carboidrato por ingestão
Aqui, a combinação entre gel e repositor eletrolítico pode ser uma estratégia eficiente.
Ambientes frios
No frio, a percepção de sede costuma ser reduzida, o que pode levar a uma ingestão insuficiente de líquidos. Apesar disso, a demanda energética continua alta.
Para esses casos:
- Géis mais concentrados podem ser melhor tolerados
- A ingestão de carboidratos pode ser mantida ou até aumentada
- Atenção para não negligenciar a hidratação
Além disso, a viscosidade do gel pode aumentar em temperaturas muito baixas, o que impacta a palatabilidade e o consumo.
Altitude
Em altitude, há alterações fisiológicas importantes, como maior utilização de carboidratos e possível redução do apetite. Também pode haver maior risco de desconforto gastrointestinal.
Estratégias recomendadas:
- Priorizar carboidratos de fácil absorção
- Fracionar a ingestão ao longo do exercício
- Testar previamente a tolerância em condições similares
A escolha do gel aqui deve focar na eficiência energética com mínima sobrecarga gastrointestinal.
Aplicação prática
A escolha do gel deve sempre considerar o ambiente da prova ou do treino. Algumas diretrizes práticas incluem:
- Calor e umidade elevados: priorizar géis com sódio e menor concentração, sempre com água
- Frio: maior flexibilidade para géis mais concentrados
- Altitude: foco em tolerância e fracionamento
Testar essas estratégias em treino é essencial para evitar surpresas no dia da prova.
O ambiente exerce influência direta sobre a resposta fisiológica ao exercício e, consequentemente, sobre a nutrição esportiva. Ajustar a escolha do gel de acordo com temperatura, umidade e altitude permite otimizar a absorção, reduzir desconfortos e sustentar a performance ao longo do esforço.
Ignorar essas variáveis pode comprometer até mesmo estratégias nutricionais bem planejadas.
Referência
Naderi A, Gobbi N, Ali A, Berjisian E, Hamidvand A, Forbes SC, Koozehchian MS, Karayigit R, Saunders B. Carbohydrates and Endurance Exercise: A Narrative Review of a Food First Approach. Nutrients. 2023, 15(6):1367. Disponível em: Acessar artigo no PubMed