A estratégia de economizar carboidrato no treino, também conhecida como treinar com baixa disponibilidade de carboidratos, tem ganhado espaço no endurance como uma ferramenta para adaptação metabólica. Mas nem todo treino deve seguir essa lógica. Saber quando reduzir a ingestão de carboidrato pode potencializar adaptações importantes, enquanto o uso inadequado pode comprometer a performance e a recuperação.
O que significa economizar carboidrato no treino
Economizar carboidrato não significa zerar a ingestão, mas sim treinar com menor disponibilidade desse nutriente, seja reduzindo o consumo antes ou durante o treino, ou iniciando a sessão com estoques de glicogênio mais baixos.
Essa estratégia é conhecida como “train low” e tem como objetivo estimular o organismo a utilizar mais gordura como fonte de energia, além de promover adaptações mitocondriais relevantes para o desempenho em esportes de endurance.
Quando essa estratégia faz sentido
Treinos de baixa intensidade
Sessões leves, como treinos regenerativos ou treinos aeróbicos contínuos em baixa intensidade, são os principais candidatos para reduzir a ingestão de carboidrato.
Nesses casos, a demanda energética é menor e o corpo consegue sustentar o esforço utilizando maior proporção de gordura, favorecendo adaptações metabólicas sem grande prejuízo à qualidade do treino.
Períodos de base
Durante fases iniciais do ciclo de treinamento, quando o foco está na construção de capacidade aeróbica, essa estratégia pode ser aplicada de forma controlada.
O objetivo aqui é melhorar a eficiência metabólica, preparando o atleta para fases posteriores com maior intensidade e maior demanda de carboidrato.
Sessões específicas de adaptação
Alguns protocolos utilizam treinos em jejum ou sessões duplas, onde o segundo treino é realizado com menor disponibilidade de glicogênio.
Essas abordagens devem ser bem planejadas, pois aumentam o estresse fisiológico e exigem atenção especial à recuperação.
Quando não vale a pena economizar carboidrato
Treinos intensos
Sessões com alta intensidade, como intervalados, treinos de ritmo ou provas simuladas, dependem fortemente do carboidrato como fonte de energia.
Reduzir a disponibilidade nesses momentos compromete a qualidade do treino, diminui a capacidade de sustentar o esforço e pode prejudicar as adaptações específicas de performance.
Próximo de competições
Em períodos próximos a provas, a prioridade deve ser maximizar a performance e a recuperação.
Nesse contexto, estratégias de baixa disponibilidade de carboidrato tendem a ser contraproducentes.
Atletas com alta carga de treino
Atletas com volume elevado de treinos podem não tolerar bem a redução frequente de carboidrato, já que isso aumenta o risco de fadiga acumulada, queda de desempenho e maior suscetibilidade a doenças.
Aplicação prática no endurance
A estratégia mais eficiente não é escolher entre consumir muito ou pouco carboidrato, mas sim periodizar a ingestão de acordo com o objetivo de cada sessão.
Treinos leves podem ser oportunidades para reduzir o consumo, enquanto treinos chave devem ser realizados com ingestão adequada de carboidratos para garantir qualidade e adaptação.
Esse equilíbrio permite desenvolver tanto a eficiência metabólica quanto a capacidade de sustentar altas intensidades, dois pilares fundamentais para o desempenho no endurance.
Conclusão
Economizar carboidrato no treino pode ser uma estratégia útil, desde que aplicada no contexto certo. O segredo está em alinhar a ingestão de carboidratos com o objetivo do treino, evitando comprometer sessões importantes e priorizando a consistência ao longo do ciclo.
No endurance, mais importante do que restringir ou aumentar o consumo é saber quando fazer cada um.
Referência
Podlogar T, Wallis GA. New Horizons in Carbohydrate Research and Application for Endurance Athletes. Sports Medicine, 2022.
Disponível em: Acessar artigo