A microbiota intestinal deixou de ser um assunto restrito à saúde digestiva. Hoje, ela é estudada também pela possível relação com metabolismo energético, inflamação, imunidade, recuperação e, consequentemente, desempenho esportivo.
Mas será que ter uma determinada microbiota faz um atleta performar melhor? A resposta ainda não é tão simples. O que a ciência mostra é que existe uma relação de mão dupla: o exercício modifica a microbiota, e a microbiota pode influenciar processos importantes para o desempenho.
Exercício também influencia a microbiota
Treinar não gera adaptações apenas nos músculos e no sistema cardiovascular. O intestino também responde ao estímulo.
Exercícios regulares, especialmente quando associados a uma alimentação adequada, podem favorecer mudanças na composição e na diversidade da microbiota. Por outro lado, sessões muito prolongadas ou de alta intensidade, principalmente quando combinadas com recuperação insuficiente, podem aumentar o estresse gastrointestinal e afetar a barreira intestinal.
Isso ajuda a explicar por que o planejamento nutricional é tão importante para atletas. Não é apenas sobre fornecer energia para o treino, mas também sobre criar condições para que o sistema gastrointestinal consiga lidar com a rotina de treinamento.
A microbiota participa do metabolismo energético
Uma das conexões mais interessantes entre microbiota e performance está nos metabólitos produzidos pelas bactérias intestinais.
Entre eles estão os ácidos graxos de cadeia curta, como acetato, propionato e butirato. Esses compostos podem participar de processos relacionados ao metabolismo energético, à sinalização celular e à resposta inflamatória. Há evidências de que essas vias podem influenciar o metabolismo muscular e a eficiência energética.
Isso não significa que determinadas bactérias sejam capazes de “produzir performance”. A relação é muito mais complexa. A microbiota funciona como parte de uma rede que envolve alimentação, intestino, metabolismo, sistema imunológico e músculo.
Intestino, imunidade e recuperação
Para quem treina com frequência, manter uma boa função intestinal também pode ser importante para conseguir sustentar a rotina de treinamento.
O exercício intenso e prolongado pode aumentar o estresse fisiológico e, em determinadas condições, alterar a permeabilidade intestinal e a resposta inflamatória. Uma microbiota equilibrada pode participar da manutenção da barreira intestinal e da regulação de respostas imunológicas.
Na prática, isso importa porque treinar bem não depende apenas de conseguir completar uma sessão, mas também de conseguir se recuperar e repetir esse estímulo ao longo das semanas.
E os desconfortos gastrointestinais?
Aqui a relação fica ainda mais interessante para esportes de endurance.
Corridas longas, ciclismo e triathlon podem aumentar a ocorrência de sintomas como náusea, distensão abdominal, cólicas e alterações intestinais. O exercício intenso, a redução do fluxo sanguíneo gastrointestinal, o calor e a estratégia nutricional utilizada durante a prova podem contribuir para esses sintomas.
A microbiota é mais uma peça desse quebra-cabeça. Estudos recentes investigam se mudanças no microbioma e estratégias direcionadas ao intestino podem ajudar a reduzir sintomas gastrointestinais e melhorar a tolerância ao exercício.
Mas é importante não transformar essa evidência em uma promessa. Ainda não existe uma “microbiota ideal do atleta” que possa ser utilizada como receita universal.
Probióticos podem melhorar a performance?
É uma das perguntas que mais aparecem quando falamos sobre microbiota e esporte.
Alguns estudos com probióticos encontraram resultados positivos em parâmetros relacionados à inflamação, sintomas gastrointestinais e até desempenho. Uma revisão sistemática publicada em 2024 encontrou resultados promissores, mas também destacou que muitos dos estudos disponíveis apresentam limitações metodológicas e risco elevado de viés.
Por isso, probiótico não deve ser tratado como um suplemento ergogênico universal.
Os efeitos dependem da cepa utilizada, dose, duração da intervenção, características do indivíduo e modalidade esportiva. Mais estudos são necessários para entender quais estratégias realmente funcionam e para quem.
Então, como cuidar da microbiota pensando em performance?
Antes de pensar em um suplemento específico, vale olhar para os fundamentos.
Uma alimentação variada, adequada às demandas energéticas do treinamento e com boa oferta de fibras e alimentos vegetais é uma das principais ferramentas para favorecer um ambiente intestinal saudável.
Também é importante considerar o contexto esportivo. Uma estratégia nutricional que funciona para uma pessoa pode não funcionar para outra, especialmente quando existem grandes diferenças no volume de treino, intensidade, modalidade e tolerância gastrointestinal.
Além disso, o intestino também precisa ser treinado. A exposição progressiva às quantidades de carboidrato e líquidos utilizadas durante exercícios prolongados pode ajudar o atleta a melhorar a tolerância gastrointestinal ao longo do tempo.
A microbiota pode ser mais uma peça da performance
A relação entre microbiota e esporte ainda está sendo construída pela ciência, mas já sabemos que o intestino não funciona de forma isolada.
Exercício, alimentação, microbiota, metabolismo, imunidade e recuperação estão conectados.
O próximo passo não é descobrir uma bactéria milagrosa capaz de aumentar a performance, mas entender como essas interações podem ser utilizadas de maneira individualizada.
Por enquanto, a mensagem mais importante é simples: cuidar do intestino faz parte de cuidar do atleta. E, para quem busca performance, isso significa olhar não apenas para o que acontece durante o treino, mas também para tudo o que permite que o corpo esteja preparado para o próximo.