Nem todo esforço intenso pode ser sustentado por muito tempo. Quando a intensidade do exercício ultrapassa a capacidade do organismo de produzir e utilizar energia de forma suficiente para manter aquele ritmo, o corpo começa a acumular sinais de fadiga e fica cada vez mais difícil continuar no mesmo nível.
Isso pode acontecer durante um treino, uma subida, um ataque no ciclismo ou até mesmo no início de uma prova, quando o atleta começa em uma intensidade maior do que consegue sustentar.
O corpo precisa mudar a forma de produzir energia
Conforme a intensidade aumenta, a demanda energética cresce rapidamente. Em esforços mais intensos, a contribuição das vias anaeróbias aumenta para atender à necessidade de energia, enquanto o organismo também precisa lidar com o aumento da produção de metabólitos associados ao exercício.
Ao mesmo tempo, aumentam a ventilação, a frequência cardíaca e a percepção de esforço. Quando essa intensidade é mantida por tempo suficiente, o atleta começa a ter dificuldade para sustentar a mesma velocidade ou potência.
Por isso, aquele momento em que parece que o corpo "não responde mais" não acontece de forma aleatória. É resultado de uma demanda que está se tornando maior do que a capacidade de sustentação naquele momento.
Como isso aparece durante o treino?
Um exemplo clássico acontece em treinos intervalados.
Imagine um corredor que precisa realizar 5 × 1 km em uma intensidade alta. Ele começa a primeira repetição muito acima do ritmo planejado porque se sente bem e acredita que conseguirá manter aquele desempenho.
O primeiro quilômetro sai rápido. No segundo, a respiração já está muito mais intensa. No terceiro, a percepção de esforço aumenta e o ritmo começa a cair. Nas últimas repetições, ele precisa reduzir ainda mais a velocidade para conseguir completar o treino.
Nesse caso, o atleta não necessariamente perdeu condicionamento. Ele começou acima de uma intensidade que conseguia sustentar metabolicamente por aquele período.
Isso também pode acontecer em uma prova
Em uma competição, esse mecanismo fica ainda mais evidente. Começar acima da capacidade de sustentação pode parecer vantajoso nos primeiros quilômetros, mas o custo fisiológico aparece mais adiante.
Em uma prova longa, por exemplo, aumentar demais a intensidade em uma subida pode elevar rapidamente a demanda energética e acelerar a fadiga. O atleta pode até ganhar alguns segundos naquele trecho, mas depois precisar reduzir significativamente o ritmo.
É por isso que estratégias de pacing são tão importantes no endurance: não basta produzir muita energia; é preciso conseguir sustentar a intensidade pelo tempo necessário.
Treinar acima do limite é sempre ruim?
Não. Esforços acima da capacidade de sustentação fazem parte de muitos treinos e podem ser importantes para desenvolver diferentes adaptações. O problema está em não diferenciar um estímulo planejado de um esforço excessivo e mal distribuído.
Se todos os treinos forem realizados em intensidades muito altas, a recuperação pode ser prejudicada e a qualidade das sessões seguintes pode cair.
O treinamento precisa considerar a relação entre intensidade, duração e recuperação.
A capacidade metabólica pode ser treinada
Com treinamento adequado, o organismo melhora sua capacidade de produzir e utilizar energia, transportar oxigênio e sustentar intensidades mais elevadas. Isso permite que, com o tempo, um ritmo que antes era muito difícil se torne mais sustentável.
Por isso, evolução não significa apenas conseguir atingir uma velocidade ou potência maior. Também significa conseguir sustentar uma intensidade elevada por mais tempo antes que a fadiga limite o desempenho.
No esporte, saber acelerar é importante. Saber quando e quanto acelerar pode ser ainda mais importante.