Quem já tentou correr, pedalar ou simplesmente subir uma montanha em grandes altitudes provavelmente percebeu algo estranho: o mesmo esforço que parece confortável ao nível do mar pode se tornar muito mais difícil alguns milhares de metros acima.
A sensação de falta de ar aumenta, a frequência cardíaca sobe e o ritmo precisa ser reduzido. Mas por que isso acontece?
A principal explicação está na menor disponibilidade de oxigênio, que modifica a forma como o organismo transporta e utiliza esse gás durante o exercício.
O ar não tem menos oxigênio, mas a pressão é menor
Um ponto importante é que a porcentagem de oxigênio no ar permanece próxima de 21% mesmo em grandes altitudes. O que muda é a pressão atmosférica.
À medida que a altitude aumenta, a pressão barométrica diminui. Com isso, também cai a pressão parcial de oxigênio no ar inspirado. Consequentemente, existe uma menor pressão para que o oxigênio passe dos pulmões para o sangue.
Esse fenômeno é chamado de hipóxia, uma menor disponibilidade de oxigênio para os tecidos.
Durante o exercício, essa diferença se torna ainda mais relevante, porque a demanda energética dos músculos aumenta justamente quando a oferta de oxigênio está reduzida.
O que acontece com o VO₂max?
O VO₂max representa a capacidade máxima do organismo de captar, transportar e utilizar oxigênio durante o exercício.
Em altitude, essa capacidade diminui. Como existe menos oxigênio disponível para ser transportado pelo sangue, o organismo encontra maior dificuldade para sustentar o mesmo consumo máximo de O₂ observado ao nível do mar.
Na prática, isso significa que uma intensidade que corresponde a determinada porcentagem do VO₂max ao nível do mar pode representar uma intensidade relativa muito maior em altitude.
Por isso, o atleta pode precisar reduzir o ritmo mesmo mantendo a mesma percepção de esforço.
A redução da capacidade aeróbica tende a ser progressiva conforme a altitude aumenta.
O coração e a respiração precisam trabalhar mais
O organismo tenta compensar a menor disponibilidade de oxigênio aumentando a ventilação e modificando a resposta cardiovascular.
A respiração fica mais rápida e profunda para aumentar a entrada de oxigênio nos pulmões. Ao mesmo tempo, a frequência cardíaca tende a aumentar para uma mesma carga de exercício.
Ou seja, para realizar o mesmo trabalho, o corpo precisa se esforçar mais.
Esse aumento da ventilação também aumenta o trabalho dos músculos respiratórios, enquanto as alterações cardiovasculares ajudam a preservar a entrega de oxigênio aos tecidos.
Por que o ritmo cai tanto em esportes de endurance?
Corrida, ciclismo, triathlon e outras modalidades de endurance dependem fortemente do metabolismo aeróbico.
Quando a disponibilidade de oxigênio diminui, a capacidade de sustentar altas intensidades também é afetada. Isso pode aparecer como redução da velocidade, menor potência produzida ou dificuldade para manter o ritmo durante períodos prolongados.
Em esportes que exigem esforços repetidos, como futebol, por exemplo, a hipóxia também pode prejudicar a capacidade de realizar acelerações sucessivas e manter o desempenho ao longo da atividade.
E existe outro detalhe importante: nem todo atleta responde da mesma maneira.
Atletas de endurance que já apresentam maior queda da saturação de oxigênio durante o exercício podem sofrer uma redução ainda mais acentuada do desempenho quando expostos à altitude.
O corpo consegue se adaptar
A boa notícia é que o organismo não simplesmente aceita essa menor disponibilidade de oxigênio.
Com a exposição à altitude, diferentes mecanismos de adaptação começam a acontecer.
Um dos mais conhecidos envolve o aumento da produção de eritropoietina, a EPO, um hormônio produzido principalmente pelos rins que estimula a produção de células vermelhas do sangue.
Com o tempo, alterações na massa total de hemoglobina podem melhorar a capacidade de transporte de oxigênio. Essa é uma das razões pelas quais estratégias de treinamento em altitude são utilizadas por atletas de endurance.
Entretanto, adaptação não significa que o atleta imediatamente volte a apresentar a mesma performance do nível do mar. O processo depende da altitude, duração da exposição, características individuais e estratégia de treinamento.
Treinar em altitude é sempre melhor?
Não necessariamente.
Existe uma diferença importante entre competir em altitude e usar a altitude como estratégia de treinamento.
A exposição aguda à altitude tende a prejudicar o desempenho. Já algumas estratégias de treinamento hipóxico podem estimular adaptações fisiológicas interessantes.
Uma das estratégias mais estudadas é o modelo Live High, Train Low, no qual o atleta vive em altitude, mas realiza parte dos treinos em altitudes mais baixas. A ideia é aproveitar alguns estímulos fisiológicos da hipóxia sem comprometer tanto a capacidade de realizar treinos de alta intensidade.
Uma revisão de 2023 mostrou que essa estratégia pode promover adaptações relacionadas ao transporte de oxigênio e, em diferentes estudos, melhorar VO₂max, desempenho em testes contra o relógio e potência máxima.
Ainda assim, os resultados não são uniformes. Diferentes protocolos, altitudes, duração da exposição e características dos atletas produzem respostas diferentes. Por isso, altitude não deve ser tratada como uma estratégia universal para melhorar performance.
E a hidratação?
A hidratação também merece atenção em altitude.
A exposição à altitude pode alterar o equilíbrio de fluidos e aumentar a perda de água, especialmente por causa do aumento da ventilação. Em atividades prolongadas, isso pode tornar a estratégia de hidratação ainda mais importante.
Além disso, quando a atividade acontece acima de aproximadamente 2.500 metros, fatores ambientais e fisiológicos associados à altitude podem tornar a hidratação mais complexa do que ao nível do mar.
Isso não significa que o atleta deva simplesmente beber o máximo possível. A estratégia precisa considerar duração e intensidade do exercício, condições ambientais, taxa de suor e tolerância individual.
A altitude muda a percepção do esforço
Talvez uma das mudanças mais perceptíveis seja justamente a sensação de esforço.
O atleta pode olhar para o relógio e perceber que está correndo em um ritmo consideravelmente mais lento, mesmo sentindo que está fazendo um esforço semelhante ou até maior.
Isso acontece porque a relação entre carga externa e resposta fisiológica muda.
Em outras palavras, correr a 5:00 min/km não representa necessariamente o mesmo desafio fisiológico em São Paulo, no nível do mar, e em uma cidade localizada a milhares de metros de altitude.
Por isso, utilizar apenas ritmo ou potência como referência pode ser inadequado durante os primeiros dias de exposição. A percepção de esforço, frequência cardíaca e, quando disponível, saturação de oxigênio podem ajudar a interpretar melhor a resposta individual.
Quanto maior a altitude, maior o desafio?
De maneira geral, sim.
Conforme a altitude aumenta, a pressão parcial de oxigênio diminui e o estresse hipóxico se torna maior. Consequentemente, a queda da capacidade aeróbica tende a se acentuar.
Mas existe uma diferença importante entre exposição aguda e aclimatação.
Um atleta que chega à altitude pela primeira vez não apresenta as mesmas respostas de alguém que passou semanas se adaptando ao ambiente. A aclimatação modifica diversas respostas respiratórias, cardiovasculares e hematológicas.
É justamente essa capacidade de adaptação que torna o estudo da altitude tão interessante para a ciência do esporte.
Na prática, o que isso significa para o atleta?
Se uma prova ou treino importante acontecer em altitude, esperar que o corpo mantenha exatamente o mesmo ritmo do nível do mar pode ser um erro.
É necessário considerar:
1. Altitude do local: quanto maior a altitude, maior tende a ser o impacto sobre a disponibilidade de oxigênio.
2. Tempo de exposição: os primeiros dias são diferentes de períodos mais longos de aclimatação.
3. Intensidade do exercício: quanto maior a demanda aeróbica, maior pode ser o impacto da hipóxia.
4. Estratégia de ritmo: controlar o esforço pode ser mais importante do que tentar reproduzir exatamente os ritmos do nível do mar.
5. Hidratação e nutrição: devem ser planejadas considerando as condições ambientais e as demandas específicas da atividade.
6. Resposta individual: dois atletas na mesma altitude podem apresentar respostas diferentes.
O ponto principal
A altitude não muda apenas o cenário da prova. Ela muda a fisiologia do exercício.
Com menos pressão disponível para o oxigênio, o organismo precisa trabalhar mais para manter sua oferta aos músculos. A ventilação aumenta, a frequência cardíaca se modifica, o VO₂max diminui e a capacidade de sustentar determinadas intensidades pode ser reduzida.
Ao mesmo tempo, a exposição prolongada desencadeia mecanismos de aclimatação que ajudam o organismo a lidar com esse ambiente.
É justamente essa combinação entre queda aguda de performance e adaptação fisiológica que faz da altitude um dos ambientes mais interessantes para estudar o desempenho humano.
Para o atleta, a principal lição é simples: em altitude, o mesmo ritmo não significa necessariamente o mesmo esforço.