Os agonistas do receptor de GLP-1 são amplamente utilizados hoje por seus efeitos no controle do apetite e do peso corporal. Um dos principais mecanismos de ação dessa classe de medicamentos é o retardo do esvaziamento gástrico, ou seja, o conteúdo ingerido permanece mais tempo no estômago antes de seguir para o intestino delgado. Esse efeito, embora desejável para aumentar a saciedade, pode ter implicações importantes para a hidratação.
O esvaziamento gástrico é uma etapa fundamental para a absorção de líquidos. A água que ingerimos não é absorvida de forma significativa no estômago; ela precisa chegar ao intestino delgado para então ser absorvida e contribuir efetivamente para o equilíbrio hídrico do organismo. Quando esse trânsito é mais lento, a água permanece mais tempo no estômago, o que pode atrasar sua absorção sistêmica.
Uma meta-análise recente, que reuniu dados de diversos estudos clínicos, demonstrou que o uso de agonistas de GLP-1 está associado a um atraso médio de aproximadamente 36 minutos no esvaziamento gástrico quando comparado ao placebo, especialmente para conteúdos sólidos, mensurado por técnicas como a cintilografia. Embora esse atraso possa parecer pequeno, ele se torna relevante no contexto do dia a dia, principalmente quando associado a uma ingestão hídrica já reduzida.
Além do atraso na absorção, o esvaziamento gástrico mais lento contribui para uma sensação prolongada de plenitude gástrica. Muitas pessoas em uso de GLP-1 relatam que se sentem “cheias” com pequenos volumes, o que pode reduzir espontaneamente a vontade de beber água ao longo do dia. Com isso, o consumo total de líquidos tende a diminuir, mesmo sem que haja uma percepção clara de sede ou desidratação.
Esse cenário cria uma combinação desfavorável: por um lado, a água ingerida demora mais para ser absorvida; por outro, a ingestão total de líquidos pode cair. Em situações de maior demanda hídrica, como prática de atividade física, exposição ao calor ou ingestão insuficiente de eletrólitos, esse efeito pode se tornar ainda mais relevante, intensificando o risco de desidratação.
Portanto, embora os agonistas de GLP-1 não causem desidratação de forma direta, o atraso no esvaziamento gástrico documentado na literatura científica ajuda a explicar por que algumas pessoas podem apresentar sinais de hidratação inadequada durante o uso desses medicamentos. A atenção ao consumo regular de líquidos, distribuído ao longo do dia, e à ingestão adequada de eletrólitos torna-se essencial para minimizar esse efeito fisiológico e manter o equilíbrio hídrico adequado.