Quando um atleta jovem sofre uma parada cardíaca súbita durante um treino ou competição, a reação costuma ser imediata: surpresa, incredulidade e muitas perguntas. Afinal, estamos falando de alguém ativo, treinado e, em tese, saudável. Como o coração pode falhar justamente nesse contexto? A parada cardíaca súbita (PCS) em atletas é rara, mas seu impacto é desproporcional à sua frequência, justamente porque ocorre em indivíduos jovens, muitas vezes sem diagnóstico prévio de doença cardiovascular. Entender o que está por trás desses eventos é fundamental para quem trabalha com saúde, esporte e performance.

Um ponto importante logo de início é que, na maioria das vezes, a parada cardíaca súbita em atletas jovens não tem relação com infarto. O mecanismo mais comum é uma arritmia ventricular grave, que faz com que o coração deixe de bombear sangue de forma eficaz, geralmente durante ou logo após o exercício intenso, quando o coração é submetido a maior estresse elétrico e hemodinâmico.

Na prática, isso geralmente acontece em corações que apresentam alguma condição prévia, muitas vezes silenciosa. Entre as causas mais frequentemente associadas estão:

  • cardiomiopatia hipertrófica;

  • cardiomiopatia arritmogênica;

  • anomalias congênitas das artérias coronárias;

  • miocardite;

  • canalopatias, como síndrome do QT longo e síndrome de Brugada.

Um dado que chama atenção nos estudos mais recentes é que, em uma parcela relevante dos casos, a autópsia não mostra alterações estruturais evidentes no coração. Nesses cenários, exames genéticos, a chamada autópsia molecular, conseguem identificar variantes associadas a distúrbios elétricos em cerca de um quarto dos atletas. Em outras palavras, o problema não está na forma do coração, mas na maneira como seus sinais elétricos são gerados e conduzidos.

Com o avançar da idade, o perfil muda. A partir dos 35 anos, a principal causa de parada cardíaca súbita passa a ser a doença arterial coronariana aterosclerótica, semelhante ao que ocorre na população geral. O exercício, nesse contexto, atua como um gatilho para eventos arrítmicos em um coração que já apresenta doença estabelecida.

Diante disso, é natural surgir a pergunta: dá para prevenir? Em muitos casos, sim. A avaliação pré-participação bem feita continua sendo uma das ferramentas mais importantes. Quando inclui uma boa anamnese, investigação do histórico familiar, exame físico cuidadoso e eletrocardiograma de 12 derivações, a chance de identificar condições associadas à PCS aumenta de forma significativa. O ECG, quando interpretado por profissionais treinados em cardiologia do esporte, consegue detectar cerca de dois terços das doenças relacionadas à morte súbita, com baixa taxa de falso-positivo.

Ainda assim, nem todos os eventos são evitáveis. Por isso, a preparação para a emergência é tão decisiva quanto a prevenção. A sobrevida após uma parada cardíaca súbita depende, basicamente, do tempo até a desfibrilação. Ambientes esportivos com planos de ação bem definidos, equipes treinadas em reanimação cardiopulmonar e acesso rápido a desfibriladores externos automáticos mudaram de forma significativa o prognóstico desses casos.

Outro ponto que merece destaque é que sobreviver a uma parada cardíaca súbita não significa, necessariamente, o fim da prática esportiva. Com diagnóstico preciso, tratamento adequado e acompanhamento especializado, muitos atletas conseguem retornar ao esporte de forma segura, a partir de decisões individualizadas e compartilhadas.

Em resumo, a parada cardíaca súbita em atletas é rara, mas exige atenção contínua. A combinação de triagem adequada, ambientes preparados e decisões clínicas bem fundamentadas tem permitido não apenas reduzir a mortalidade, mas também preservar a prática esportiva com mais segurança.

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