O uso de géis com maior quantidade de carboidrato tem se tornado cada vez mais comum no endurance. Mas, na prática, entender quando essa estratégia faz sentido é essencial para otimizar a performance sem comprometer a tolerância gastrointestinal.
O que muda em um gel com mais carboidrato?
Géis com maior concentração de carboidratos, como opções com 40 g, 60 g ou até 75 g por unidade, oferecem uma entrega energética mais elevada por dose.
Do ponto de vista fisiológico, isso permite aumentar a ingestão de carboidratos por hora, favorecendo a manutenção da glicemia e a oxidação de carboidratos exógenos, especialmente em exercícios prolongados.
No entanto, essa maior densidade também exige mais atenção à absorção intestinal e à estratégia de consumo.
Quando faz sentido utilizar géis mais concentrados?
Provas longas ou treinos acima de 2 horas
Em exercícios prolongados, a demanda energética aumenta e a ingestão de carboidratos pode chegar a 60 a 90 g por hora, ou até mais em atletas treinados.
Nesse contexto, géis mais concentrados ajudam a atingir essas metas com menor volume, o que facilita a logística de consumo durante a atividade.
Atletas com alta tolerância gastrointestinal
Nem todos os atletas toleram grandes quantidades de carboidrato por hora.
Géis mais concentrados fazem mais sentido para quem já treinou o intestino e consegue lidar bem com maiores cargas de carboidrato, especialmente combinações de múltiplos transportadores, como glicose e frutose.
Momentos críticos de prova
Subidas longas, trechos mais intensos ou fases finais de prova são situações em que a demanda energética aumenta.
Nesses momentos, o uso de um gel mais concentrado pode ser uma estratégia eficiente para garantir rápida disponibilidade de energia sem depender de múltiplas ingestões.
Limitação de tempo ou oportunidade para consumir
Em algumas provas, o atleta simplesmente não consegue consumir com frequência, seja por intensidade, técnica ou terreno.
Nesses casos, géis com maior quantidade de carboidrato ajudam a concentrar a ingestão em janelas mais curtas.
Pontos de atenção
Apesar das vantagens, essa estratégia exige cuidado
Maior risco de desconforto gastrointestinal se não houver adaptação
Necessidade de ingestão adequada de água para otimizar a absorção
Importância de fracionar o consumo em vez de ingerir grandes quantidades de uma vez
A individualização é fundamental para evitar queda de performance por má tolerância.
Aplicação prática
Na prática, géis mais concentrados não são obrigatórios, mas são ferramentas estratégicas.
Eles fazem mais sentido em contextos onde
A meta de carboidrato por hora é elevada
A logística de prova limita ingestões frequentes
O atleta já possui boa adaptação intestinal
Uma estratégia comum é combiná-los com outras formas de carboidrato, ajustando o consumo ao longo da prova de acordo com intensidade e oportunidade.
O uso de géis com maior quantidade de carboidrato pode ser uma estratégia eficiente para otimizar a ingestão energética no endurance.
No entanto, seu benefício depende diretamente do contexto, da intensidade do exercício e da tolerância individual do atleta.
Mais do que a quantidade por gel, o que determina a performance é a estratégia como um todo.
Referência:
Reinhard C, Galloway SDRG. (2022). Carbohydrate intake practices and determinants of food choices during training in recreational, amateur, and professional endurance athletes: a survey analysis. Frontiers in Nutrition, 9:862396.
Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35360695/